Banco para quem não gosta de ir ao banco

hsbc

Empresa

HSBC

Enfoque da estratégia

Praça: o banco HSBC acaba de lançar uma nova estratégia de distribuição de serviços no Brasil chamada de “banco direto”. O projeto HSBC Direct chegou ao país no início de março, depois de já contar com cerca de 1,5 milhão de clientes na América do Norte e na Ásia. O modelo de prestação de serviços dispensa o acesso do correntista a uma agência bancária no mundo físico. Todas as interações e transações com o banco são realizadas por meio de canais remotos: internet banking, chat, e-mail, celular, caixa eletrônico e central de atendimento telefônico. A abertura de contas é feita exclusivamente pela web, sendo restrita a pessoas físicas não-correntistas do banco.

Tecnologia aplicada

Internet banking, chat, e-mail, mobile banking, e-commerce, caixa eletrônico e central telefônica: todas as tecnologias empregadas tem função de consulta e requisição, enquanto que só o chat e o e-mail não são transacionais. Chamam atenção em especial: (1) o mobile banking, através do Direct Token, aplicativo para celular que permite a realização de transações, e (2) o e-commerce, por meio do Portal de Compras, que opera dentro do ambiente de internet banking integrado às lojas virtuais de diversos varejistas, possibilitando compras seguras, viabilizadas pelos meios de pagamento do próprio HSBC Direct.

Integração da estratégia ao mix

  • Produto: a estratégia do HSBC Direct se destaca, em primeiro lugar, pelo empacotamento dos serviços. Ou seja, o cliente não pode customizar os serviços oferecidos. Ao todo são atualmente 15, distribuídos em todos os canais utilizados, entre os quais estão extratos, transferências, saques e alertas. A segunda característica interessante é o fato de eles serem ilimitados quanto ao uso (exceto pelos saques que tem limite de valor diário, por razões de segurança). Por fim, fecha a estratégia de produto o próprio mix do Portal de Compras. Ou seja, além de todos os serviços financeiros que fazem parte do core do banco, há uma configuração especial de produtos de varejo, de acordo com o perfil do segmento-alvo de clientes do banco direto.
  • Preço: do mesmo modo que os serviços são empacotados, o preço nominal do banco direto é fechado. Assim sendo, o cliente paga uma única tarifa mensal para desfrutar de toda a oferta apresentada anteriormente. Por outro lado, há uma política de descontos graduais para o cliente, conforme o seu volume de investimentos depositados no banco. Já o Portal de Compras, além da configuração de produtos diferenciada, também oferece descontos aos correntistas do HSBC Direct em relação aos preços nominais que seriam pagos caso comprassem nos mesmos varejistas parceiros, sem o intermédio do banco.
  • Promoção: o website do HSBC Direct é a seu principal ferramenta promocional, apresentando informações detalhadas sobre o modelo de prestação de serviços e suas vantagens. A presença de marca é apoiada por mídia on-line e links patrocinados.

Opinião do blogueiro

As boas estratégias digitais de distribuição sempre me despertam maior interesse, assim como idéias inovadoras em termos de produto e preço. Não que eu esteja farto da comunicação de marketing digital. É que esta tem sido a tônica da internet desde que ela passou a ter uso comercial, o que faz mais ou menos o mesmo tempo em que estou no mercado. Ou seja, há abundância de bons cases promocionais (e outros tantos ruins). Logo, digamos que talvez já eu não me “emocione” tanto.

A inteligência da estratégia do HSBC Direct reside na sua simplicidade e obviedade. Acho que já usei estes adjetivos em outros cases aqui no blog. É por que eles resumem a capacidade de uma empresa enxergar, antes das outras, o que está debaixo do nariz de todas, mas ninguém incrivelmente percebe. O HSBC, depois de já ter testado a idéia com sucesso noutras praças, olhou para o Brasil e percebeu cerca de 10 milhões de pessoas que gostam de resolver seus problemas rapidamente e sem burocracia, precisam de mobilidade e usam constantemente os canais alternativos de atendimento. Uma conta rápida indica um mercado potencial de 2,88 bilhões de reais anuais só com faturamento de tarifas. E o HSBC, sabendo que era possível, foi lá e fez: um banco para quem não gosta de ir ao banco. Para os migrantes da web, como é o meu caso, que são do tempo em que se ia ao banco tomar café com o gerente, mas que não tem mais tempo para o café e nem lembram mais da cara do gerente. E, principalmente, para as gerações webnative que, daqui algum tempo talvez não tenham nem idéia do que é uma “agência bancária”. É provável que o HSBC esteja pensando seu no próprio fim e antecipando seu renascimento. A estrela de hoje que vai ser a vaca leiteira de amanhã.

Bem, temos aqui a estratégia de marketing digital perfeita então? Quase, eu diria. Tão interessante quanto a proposta de distribuição, são o preço e o produto. Mas a comunicação ficou para trás em relação ao resto do mix. Diferentemente dos aspectos transacionais, que estão no estado da arte, o composto promocional on-line é conservador, no mínimo. Não que o banco precise criar 20 canais no Twitter como a Dell ou desenvolver um grupo com milhões de seguidores no Facebook como a Coca-Cola. Mas, diante do segmento de consumidor buscado pelo HSBC Direct, aparentemente ignorar (tem uma comunidade no Orkut com 14 pessoas) que o Brasil é uma das 10 maiores participações nas redes sociais do mundo, já é demais. É tão óbvio que eu tenho certeza de que algo será feito em breve.

De Berlim para Frankfurt e o resto do mundo

dch

Empresa

Berliner Philharmoniker

Enfoque da estratégia

Praça: a Orquestra Filarmônica de Berlim lançou no início deste ano uma nova estratégia de distribuição dos seus concertos. Agora os apreciadores de música erudita de todo o mundo podem assistir os concertos ao vivo, transmitidos via internet pelo Digital Concert Hall, canal on-line de marketing da orquestra. Um usuário de qualquer país cria uma conta no respectivo site, compra o seu ‘ticket’ e na data e horário do evento assiste o concerto direto de um computador conectado à web, aonde quer que esteja.

Tecnologia aplicada

Comércio eletrônico, transmissão de vídeo ao vivo e conteúdo sob demanda: a primeira tecnologia é utilizada para venda dos ‘tickets’. Tanto para comprar quanto para acessar os concertos é necessário que o usuário crie uma conta no DCH e posteriormente utilize login e senha. O processo de compra segue os padrões de e-commerce já difundidos. Já o streaming de vídeo ao vivo é utilizado para que os usuários assistam o concerto em tempo real. É feito do teste de performance do computador do usuário, para verificação da sua largura de banda e capacidade de processamento de vídeo. O mesmo procedimento acontece no caso do vídeo sob demanda, que possibilita a determinados perfis de usuários assistir concertos passados de uma temporada, disponíveis em uma galeria.

Integração da estratégia ao mix

  • Produto: a programação e os concertos transmitidos via internet são exatamente os mesmos que qualquer usuário pode assistir na sede da Filarmônica, em Berlim. A única mudança está na forma como o produto é vendido, com a sua adequação às possibilidades do ambiente on-line. Há três possibilidades de compra: (1) o concerto ao vivo que possibilita o acesso à ‘sala’ 15 minutos antes do espetáculo e se encerra imediatamente após o concerto; (2) o concerto do arquivo, por meio do qual o usuário pode assistir um concerto passado de sua escolha quantas vezes desejar, dentro de um período de 48h; (3) pacote por temporada, que oferece ao usuário a possibilidade de assistir ao vivo todos os concertos de uma temporada, assim como acessa-los sob demanda nos arquivos quantas vezes quiser, enquanto durar a temporada. Durante a transmissão dos concertos são disponibilizadas informações sobre a programação, sinopse, perfil dos músicos etc. Além disso, o usuário pode configurar a visualização do concerto para tela reduzida ou cheia. A qualidade de áudio e vídeo é decorrente do teste de performance, que configura automaticamente a transmissão para se adequar à capacidade de recepção do usuário.
  • Preço: são praticados tipos de preços, conforme a configuração de produto escolhida pelo usuário: (1) nominal, de 9,90 euros para cada concerto ao vivo ou concerto do arquivo e (2) desconto especial para o pacote por temporada, que custa 89 euros. O pagamento é feito à vista, utilizando cartões de crédito, PayPal e vouchers.
  • Promoção: o portal da Filarmônica é o principal canal promocional do DCH. Este, por sua vez conta com um site focado em apresentar como funcionam os serviços, o processo de compra e outras informações, por meio de vídeos explicativos, demos e tutoriais.

Opinião do blogueiro

A primeira coisa que lembrei quando soube desta nova estratégia da Berliner Philharmoniker foi dos meus tempos de universidade. Mais especificamente das cansativas e densas aulas de Teoria da Comunicação. Sim, a famosa Escola de Frankfurt e os conceitos de ‘indústria cultural’ e ‘cultura de massa’, desenvolvidos pelos seus principais pensadores, como Adorno, Horkheimer, Benjamin e Marcuse. Fiquei imaginando o que tais intelectuais diriam da atitude deste ícone da cultura erudita mundial que é a orquestra alemã: “Blasfêmia, eles finalmente se venderam, é o fim dos tempos!”. Pois é, são os novos tempos.

Eu, que já não simpatizava com a “turma do Adorno”, não deixei de me sentir realizado com a ousadia da Filarmônica de Berlim. E isso tem pouco a ver com ideologia. Na verdade é uma questão de sustentabilidade. Do negócio e, por conseqüência, da arte. O Deutsche Bank, grande viabilizador da orquestra, não rasga dinheiro. É banco. Assistir um concerto de música erudita em um teatro não é exatamente um programa favorito da geração Y, certo? Além do que, como ganhar escala com um produto que é único e tem dificuldades logísticas consideráveis para se mover de uma praça para outra? A internet tem a resposta para estas duas questões. O formato de distribuição on-line possibilita atingir estes novos consumidores de cultura, assim como amplia radicalmente o espectro de praças atingidas. Não é preciso fazer muitas contas para ver que o investimento é certeiro: quanto custa o ingresso para assistir o concerto in loco? Quantas pessoas cabem no teatro? Quantos amantes de música erudita existem no mundo? Quantos destes adorariam assistir um concerto da Filarmônica ao vivo? Que valor isso teria para eles se pudessem assistir o evento de qualquer lugar do mundo? E que preço cobriria os custos de cada evento transmitido? O maestro regente deve ter perdido o andamento quando viu a projeção das cifras. Trata-se de um caso perfeito de diferenciação com liderança em custo. Michael Porter que me perdoe. Eu vou dar o braço a torcer. Só desta vez, prometo.

A estratégia de marketing da Berliner Philharmoniker é para ser copiada pelas casas de shows e ensinada nas salas de aula de marketing em todo o mundo. A sua simplicidade e efetividade recomendam. E a internet mais uma vez está dando um jeito de levar a montanha até Maomé. Assim, é bem possível que em breve eu possa assistir um show do Allan Holdsworth direto do Baked Potato ou do Ronnie Scott’s sentado na minha poltrona em casa. E isso vale para você e seu artista preferido também. As barreiras tecnológicas atuais, como largura de banda e processamento, são cada vez menores e logo serão inexistentes.